segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pesadelos - V

Nove anos antes…
Num cemitério, já não muito utilizado, numa sexta-feira treze de lua cheia, quase à meia-noite, encontravam-se seis rapazes com idades entre os onze e os quinze anos.
-Qual é mesmo a razão de estarmos aqui? – Perguntou um dos rapazes mais velhos.
-O simples facto de provavelmente não termos mais nenhuma oportunidade como esta na vida! – Respondeu outro dos mais velhos.
-Hum… e esta oportunidade, como dizes, é a oportunidade de?...
-A oportunidade de ter alguma coisa na vida! Anda faz isso e pára de fazer perguntas! – Disse apontado para o chão.
-Tá bem, tá bem…
Este último rapaz acabou de desenhar um grande pentagrama no chão e colocou uma vela em cada uma das cinco extremidades.
-O resto é contigo…
-Sim, eu sei.
Colocou um cálice largo de prata com um pó amarelado no seu interior no centro do pentagrama e rodeou-o com mais cinco velas, em seguida acendeu as velas que acabara de colocar e as outras que o amigo colocara antes.
-Trouxeste o que te pedi? – Perguntou afastando-o dos outros para que mais ninguém ouvisse a conversa.
-Sim, mas para que a queres?...
-Bem, para completar o ritual temos de fazer um sacrifício humano. Espero que estejas à altura da tarefa.
-Ah sim… Pera, O QUÊ?!
Virou costas deixando o amigo incrédulo e sem resposta. Este não acreditava no que se estava a meter. Nunca devia ter aceitado ir ali com aquele fanático, e acima de tudo, não devia ter trazido ninguém consigo. Estavam todos à sua espera no pentagrama para começarem o ritual. Agora já era tarde para voltar atrás, de qualquer das formas não acreditava naquilo. Dirigiu-se também para o pentagrama, já não havia volta a dar, não iria passar por cobarde. Quando lá chegou três dos rapazes estavam posicionados em três das extremidades do pentagrama e dois encontravam-se no centro junto ao cálice.
-Vem cá! – Ordenou o rapaz com quem acabara de falar.
Caminhou até ao centro onde estavam os outros dois. Para além do rapaz com quem estivera a falar e que o chamara estava o membro mais novo do grupo que apenas tinha onze anos de idade.
-Agora faz o que te disse. Rápido!
Não era capaz, não podia. Era apenas uma criança…
-Então? Faz isso depressa!
Tirou a adaga de prata do bolso do casaco, disposto a tentar completar a sua tarefa e a mostrar a sua força e coragem, mas não era capaz.
-Oh dá cá isso. – Disse tirando-lhe a adaga da mão e espetando-a no peito da criança de apenas onze anos.
Os seus olhos apagaram-se no segundo em que a adaga de prata ornamentada lhe trespassou o coração. O assassino arrancou-lhe a adaga do peito, colocou-a dentro do cálice e acendeu o pó amarelado que este continha.
-Invoco todos os espíritos negros para concederem os nossos desejos! Aceitem o nosso sacrifício, uma criança inocente pela vossa presença!
Os três rapazes que se encontravam em três das extremidades do pentagrama fugiram aterrorizados com o que presenciaram. Repentinamente um vento frio soprou e sombras surgiram de toda a parte, parecendo provir todas do chão daquele cemitério amaldiçoado e todas elas se dirigiam para eles.
-Não gosto nada disto…
-Não te preocupes, fui eu que as chamei, não nos irão fazer mal… acho…
As sombras disformes aproximavam-se cada vez mais e cada vez mais depressa. Não faziam ideia do que iria suceder, se iriam ficar bem ou mal. Mas então todas as sombras entraram no corpo sem vida da criança e por um segundo parecia que tinham desaparecido. Mas isso seria demasiado bom, então, o corpo da criança levantou-se e ficou com os olhos totalmente vermelhos.
-Nós somos grinmord. Por nos teres despertado iremos conceder-vos um desejo mas irá sair caro. – Disse uma voz grossa e tenebrosa a partir do corpo da criança.
-Eu, eu… quero um Ferreri!
-Hum… um carro… sim. Isso só custará a tua alma! Muahahahah….
-De acordo, mas não me faças mal…-disse molhando as calças.
-Um dia, quando eu quiser, virei para te buscar! E tu que queres?! – Disse apontado para o outro rapaz que ainda ali se encontrava.
-Eu… ofereço a alma da minha mulher, quando tiver uma. E quero… um bom carro e um bom emprego, bem, estar bem de vida…
-Hum… isso ir-te-á custar mais que a alma de alguém que não conheces! Suponho que a tua alma também faça parte do pacote. – Disse, libertando o corpo.
Todas as sombras deixaram o corpo numa só, que apresentava uma forma humanóide e uns olhos vermelhos. O corpo deixado no chão sem vida encontrava-se com a pele enegrecida e com os globos oculares vazios. Ambos tiveram que se esforçar por conter o vómito quando a seguir tiveram de cavar uma cova e pegar e enterrar aquele pequeno corpo que quase se desfazia nas suas mãos.
Nos dias seguintes pensou que estivesse a alucinar e com o tempo acabou por pensar que tudo aquilo não passara de uma partida que a sua mente lhe pregara, acabando quase por esquecer aquele assunto, até agora pelo menos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Pesadelos - IV

Acordou a ouvir uns sons estranhos. A sua cabeça doía como nunca, e cada um daqueles bips era um tormento. Abriu os olhos para um quarto branco. Estava num hospital. Tinha fios ligados à cabeça e ao peito, um tubinho de soro espetado na veia perto do pulso e uma espécie de mola no dedo indicador para medir as pulsações. Mas como teria ele chegado ali, e porque o tinham levado? Provavelmente teria sido aquele polícia que o encontrara junto ao carro. As dores de cabeça começavam a aumentar, e estranhamente sentia algo que parecia queima-lo por dentro. Queria sair dali. Arrancou todos os fios e pôs-se de pé, para logo se sentar na sua cama. As suas pernas estavam um pouco fracas e estava tonto. Voltou a tentar.
-O senhor não se pode levantar assim. – Disse um outro homem que estava na cama ao lado.
-E quem me vai impedir? – Disse com arrogância, continuando a andar na direcção da saída.
Uma enfermeira chegou ao quarto e assustou-se ao velo levantado.
-O senhor não pode estar assim, tem de voltar já para a cama.
-Não posso. Não aguento ficar aqui, tenho que ir embora.
-Tem de voltar, o senhor não está em condições de andar a pé.
-NÃO! – Disse ao mesmo tempo que correu para a porta, derrubando a enfermeira.
Saiu para o corredor e virou à direita, mas foi barrado por um outro enfermeiro que ouviu a confusão e logo apareceram mais dois que o agarraram pelas costas e lhe injectaram algo que não viu o que era enquanto se debatia.
-Deixem-me ir, quero sair daqui, não posso ficar aqui, não. – Dizia antes de se apagar novamente.
Acordou passadas umas horas. Aqueles bips irritantes continuavam a infiltrar-se-lhe pelo cérebro. Tinha que sair dali, não aguentava, mas tinha que esperar, a ultima vez que tentara fugir não deu muito resultado. Fechou os olhos na esperança de adormecer novamente e parar de ouvir aqueles bips que o atormentavam, mas de nada adiantou. Sentiu um pingo cair-lhe na testa, e logo em seguida outro. Abriu os olhos e quase saltou da cama. No tecto as palavras “És meu” estavam escritas com sangue. Saltou da cama, ia sair dali. Arrancou todos os fios, procurou roupas nos armários ali existentes, e encontrou as suas, ainda sujas com sangue do seu nariz. Saiu ao corredor já vestido e tentou não correr. Não queria dar nas vistas. Andou e andou, os corredores pareciam-lhe todos iguais, mas por fim encontrou o caminho para a saída pelas urgências. Durante todo o percurso não foi abordado por ninguém, e quando estava já a sair á porta automática do hospital alguém o chamou.
-O senhor, hey, o senhor não pode estar aqui!
Era um dos enfermeiros que o tinha barrado antes, tinha que sair dali, mas o enfermeiro já o alcançara. Não havia mais nada a fazer. Virou-se para trás e esmurrou o enfermeiro com toda a sua força deixando este no chão. Atravessou a porta da saída a correr, antes que mais alguém decidisse tentar pará-lo. As dores de cabeça quase desapareceram por uns momentos, mas agora voltavam com ainda mais intensidade. Quase não aguentava, mas tinha que aguentar, a sua vida dependia disso. Aquilo tudo só poderia ser uma coisa. E ele que nunca acreditara naquelas coisas… talvez tivesse sido esse o seu erro desde o começo.

sábado, 13 de novembro de 2010

pausa


Sábado treze, será um dia de azar? Na minha opinião é um dia de tanto azar como uma sexta-feira treze. Ou seja, são apenas superstições estúpidas, um dia não é um dia de azar só por ser dia x ou dia y.

e já agora os gatos pretos dão tanto azar como os outros xp Não digo para não acreditarem em nada, mas não exagerem com as superstições.

(isto foi apenas para não sobrecarregar o blog com a história "Pesadelos". espero que esteja a ser interessante XD)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pesadelos - III

Acordou com um grito. Estava gelado, e todo o seu corpo estava dorido. Aqueles pesadelos estavam a deixa-lo doido. Levantou-se devagar e olhou para a sua almofada e para a sua cama para ter a certeza de que tudo não passara de um sonho, felizmente estava certo. O chão estava seco e nada tinha acontecido. Foi até à casa de banho, não queria voltar a dormir. Há mais de duas semanas que aqueles pesadelos o atormentavam repetidamente. Olhou para o espelho vendo as suas enormes olheiras. Lavou a cara para de alguma forma tentar ficar com melhor aspecto. Então sentiu um sabor metálico na boca e um liquido para além da água a escorrer pelo nariz. Olhou para o espelho novamente e viu que sangrava desenfreadamente pelo nariz. Uma enorme dor de cabeça apoderou-se dele fazendo-o quase cair ao chão. O caudal do sangue que saia do seu nariz podia-se comparar ao da água que saia pela torneira. A sua cara estava a ferver, enquanto que o seu corpo parecia enregelar. Lavava a cara continuamente para tentar parar o sangue que saía pelo seu nariz. Começou a cuspir grandes coágulos de sangue que o começavam a atrofiar. A dor de cabeça não parecia querer abrandar. Mas passado algum tempo, finalmente o caudal sanguíneo proveniente do seu nariz diminuiu. A pedra branca do lavatório encontrava-se totalmente vermelha, nem a agua que saia continuamente da sua torneira conseguia limpar totalmente aquele sangue. Por fim saiu dali. Pegou numa toalha, também branca, que mudou de cor passado alguns minutos, e foi para o seu quarto. Mal via o que o rodeava, as dores de cabeça toldavam-lhe a visão. Afastou a toalha de si, acabando de limpar o sangue e vestiu-se. Olhou para o relógio, cinco e meia da manhã, boa altura para começar o dia, embora este nem sequer tivesse nascido ainda. Saiu do seu apartamento, ainda em jejum e carregou no botão do elevador. Logo se lembrou de no seu sonho ter descido pelas escadas a correr. A dor de cabeça ainda o atormentava, mas logo passaria pela farmácia para comprar algo. O elevador não tardou em chegar, entrou e carregou no menos um que iria dar à garagem. Estupidamente no sonho não se lembrou logo do carro. O seu toyota celica preto metalizado encontrava-se apenas a alguns metros da saída do elevador. Entrou pensando em sair dali para ir tomar o pequeno-almoço, mas lembrou-se que era demasiado cedo para que uma pastelaria estivesse aberta. De qualquer das formas saiu dali, conduzir ia faze-lo relaxar. Após alguns quilómetros resolveu parar um pouco. Não podia ir muito longe, a gasolina não seria infinita. Ficou a olhar para o relógio no carro, mas o tempo parecia não passar. Sete e vinte da manhã. Sete e vinte e um… sete e vinte e dois. tinha que sair dali. Fez um pião e voltou para trás. Olhou pelo espelho retrovisor para ver se já se poderia avistar algum carro pois até então não avistara nenhum. Saltou de susto quando viu os seus olhos reflectidos. Aqueles olhos verdes estavam completamente deformados e dilatados. Estavam vermelhos como sangue. E a sua pele estava cinzenta. Por pouco não se despistou, olhou novamente, já se encontrava normal. Desta vez só parou quando chegou a uma pastelaria perto do seu prédio, o que não demorou muito, visto a partir daí ter acelerado para velocidades consideráveis. Saiu do carro e caminhou alguns metros até à porta da pastelaria. As dores de cabeça já haviam acalmado, mas ainda não tinham cessado. Entrou, a pastelaria encontrava-se praticamente vazia, apenas lá estava uma empregada ensonada. Pensou no que comer, e decidiu que apenas ia beber um café, não conseguia meter nada no estômago. Não demorou lá muito tempo, tinha que ir trabalhar, tinha que se concentrar em algo. Olhou para um jornal pousado numa mesa quando ia a sair, sábado, já não se lembrava que estava no fim-de-semana, parecia que afinal não ia trabalhar. Assim que saiu da pastelaria a dor de cabeça voltou a intensificar-se. A visão toldou-se e quase que se apagou totalmente. Que dores, não sentia mais nada para além daquelas dores. Cuspiu sangue coagulado que ainda tinha na garganta. Andou até ao seu carro, mal lá conseguindo chegar. Tentou abrir o carro, mas não conseguia colocar a chave na fechadura. Mal se conseguia manter de pé, mal conseguia respirar. Desistiu. Sentou-se no chão para tentar recuperar. Baixou a cabeça e recomeçou a sangrar. Passado alguns minutos foi abordado por alguém que o pontapeou levemente e o chamou. Levantou a cabeça e viu uma sombra ao longe num beco, uma sombra com os olhos vermelhos que rapidamente desapareceu do seu campo de visão.
-O senhor está bem? – Perguntou uma voz próxima de si.
Levantou os olhos pesarosamente para ver quem era o interlocutor daquela pergunta. Apenas teve tempo de esboçar um pequeno não antes de desmaiar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Pesadelos - II

Sangue, a sua almofada estava ensopada em sangue. Saiu da sua cama assustado, caindo ao chão. Estava encharcado em suor frio e achou deveras estranho sentir algo quente no seu chão. Não sabia se queria saber o que era aquele líquido quente e um pouco espesso, no entanto abriu os olhos. No chão estava uma grande poça de sangue que escorria da sua cama. Não ia ver o que lá se encontrava. Levantou-se de sobressalto, vestiu a primeira coisa que encontrou e saiu dali a correr. Vivia num quarto andar, carregou no botão do elevador, mas não conseguia esperar. Correu pelas escadas sem sequer ver por onde ia. Tudo lhe doía, mas não conseguia dizer exactamente o quê. Todo o seu corpo estava ao rubro, sentia que este se estilhaçava por dentro. Saiu do seu prédio por fim. Era muito tarde, não se via ninguém a pé na rua, apenas um ou outro carro andava pela estrada, a velocidades relativamente elevadas. Olhou para o céu sem nuvens bastante estrelado pensando no que lhe estava a acontecer. Continuou a olhar para aquele céu e para aquela lua cheia durante alguns minutos até que resolveu sair dali, não sabia o que se passava com ele ou com aquele lugar, só sabia que não poderia ficar ali especado. Virou à direita, não sabia para onde ia, mas isso não era muito importante. Começou a correr. Ouviu paços, paços que não eram os seus e abrandou. Ouvia os paços à sua frente mas não via nada nem ninguém. Perguntou-se se não seria melhor voltar para trás, mas não podia ter medo de tudo à sua volta, tinha de continuar em frente. Saiu da luz do candeeiro que estava por cima de si e viu o dono dos paços, ou pelo menos a sua sombra. Olhou durante uns segundos, mas apenas viu a sombra que não se apercebera da sua presença. Estacou por fim. A sombra não tinha realmente um dono, era apenas uma sombra que se movia espontaneamente. A sombra tinha uma forma humanóide, talvez um pouco mais alta e fina que o normal. Também a sombra parou. Não podia ser bom sinal. Esta virou-se para trás, para ele e este viu a sua face que o fez cair para o chão de costas. Tinha uns olhos vermelhos e fundos, e o seu rosto era cadavérico. Levantou-se e correu na direcção de onde havia vindo ainda agora. Ao virar da esquina viu algo estendido no chão. Era um homem, mas tinha o rosto coberto com um boné. Rapidamente se aproximou dele para ver se este se encontrava bem. Levantou o boné e o seu estômago deu duas voltas. O rapaz, que deveria ter aproximadamente dezassete anos não possuía olhos, tendo apenas dois buracos no globo ocular, e a sua pele apresentava um tom enegrecido e seco. Voltou a correr. Mas não foi muito longe, uns metros mais a frente sentiu uma mão fria segura-lo no ombro para que este se voltasse para trás. Aquela mão parecia feita de gelo pois sentiu-a por cima da roupa. Voltou-se, mas nada viu. Apenas sentiu um frio que o gelava por dentro. As lágrimas soltaram-se dos seus olhos por instantes e lembrou-se de alguém. Tinha que a encontrar. Correu na direcção do seu prédio, afinal de contas, tinha sido estúpido em ter saído a pé. A luz da lua foi subitamente tapada por uma enorme nuvem. Não ligou, apenas queria chegar a casa para fugir dali. Em corrida não demorou muito tempo a chegar à entrada do seu prédio, mas antes não o tivesse feito, à entrada encontrou o porteiro enforcado com uma corrente bastante grossa. Ele pingava sangue, formando por baixo de si uma poça de sangue. Segundos depois começaram-se a aglomerar mosquitos à sua volta. Foi então que olhou para o céu novamente e viu que aquela gigantesca nuvem que tapava o céu de toda a cidade estava viva, era uma nuvem de insectos. Ouviu um grito. Um grito de mulher mesmo à sua frente. Era ela. Estava do outro lado da rua, apenas tinha da atravessar. Também ela começava a ser atacada por mosquitos. Correu na sua direcção, mais uns metros e iria alcançar a mulher que amava. Então vindo do nada, como se de uma corrente de ar se tratasse, apareceu um enorme camião que lhe acertou em cheio desfazendo o seu corpo… pelo menos morreria a olhar para a coisa mais bela que já vira.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Pesadelos

Que dores! Não aguentava mais. Parecia que ia rebentar, mas não rebentava e uma vez para tudo parar! As lágrimas corriam desenfreadamente pelos seus olhos. A sua cara no chão deitada por cima de uma poça de lama e sangue, parecia contorcer-se de dor. Já não sabia bem o que doía. Se a carne ou a alma. Não conseguia manter os olhos abertos, não conseguia ver, ou talvez apenas não quisesse. Queria sair dali, queria morrer. Mas ninguém o deixava, sentia as correntes frias prende-lo ao chão. As correntes não o prendiam apenas, também o trespassavam e puxavam para todos os lados nunca o levando para nenhum, nunca o tirando dali e nunca lhe acabando com todo aquele sofrimento. Estava a agoniar, a lama começava a entrar-lhe pelo nariz e boca. Queria cuspir, queria respirar, no entanto queria morrer, mas nada conseguia fazer. Nova estocada nas costas, esta obrigou-o a cuspir algo que era mais que terra e mais que simples sangue. Não abriu os olhos, não queria ver o que acabara de cuspir. Ouviu um grande barulho, pareciam paços e uma enorme maquinaria. Sentiu um cheiro a queimado e um grito de mulher e outro de criança. Abriu os olhos por um segundo. Apenas viu sangue e vísceras ao seu redor. Não precisava ver a mulher e a criança para saber quem eram. Tinha de sair dali, tinha de fazer algo antes de morrer. Puxou, usou toda a sua força para se levantar do chão. Rasgou a sua carne, enquanto que as lágrimas rasgavam a sua cara, mas não se ergueu mais de dez centímetros do chão. Os paços de um homem aproximaram-se o suficiente para o pontapear na cara. Queria perguntar porque mas a única coisa que saiu da sua boca foram alguns dentes, sangue e pedaços de carne que não sabia de onde vinham, e preferia continuar naquela ignorância. Os gritos cessaram e o simples cheiro a queimado deu lugar a um intenso cheiro a morte. Parou de se debater, já não sentia, já não queria saber daquele mundo, daquele corpo. Apenas desejava morrer. Não importava para onde ia, ou o que acontecia, não importava se havia vida depois da morte ou não. A maquinaria estava perto, quase que lhe tocava. Sentia o vento de pequenas hélices que rodopiavam junto aos seus pés. Seria aquele o fim? Esperava que sim. Apenas mais um segundo e tudo iria terminar.
Abriu os olhos encharcado em suor. Mais uma vez aquele sonho. Gostava de pelo menos uma noite poder dormir e não sonhar com nada. Mas nos últimos tempos isso parecia impossível. Olhou para a almofada, molhada como sempre, e pulou de susto. Não queria acreditar no que via…

Matem-me

Mais um dia para esquecer.
MATEM-ME!!

(P.S. parabéns priminha)