sábado, 4 de dezembro de 2010

Pesadelos - IX

Viu no espelho aquelas palavras reflectidas. Agora faziam sentido:
“mais vale perder a vida que a perder a alma e arder no inferno”
Aquilo estava certo, estava realmente condenado, mas ainda podia tentar salvar a sua alma. Tinha tudo o que precisava para o fazer, só tinha de sobreviver até lá. Saiu do apartamento ao mesmo tempo que colocava aquela adaga novamente no bolso do casaco como havia feito há tantos anos atrás. Pensou em ir pelas escadas, mas tinha que ir pelo elevador para chegar ao seu carro. Entrou no elevador e carregou no botão que dava para a garagem e fechou os olhos com força, não queria ver aquela sombra novamente. Mesmo de olhos fechados ouviu sons tenebrosos, como se os cabos do elevador fossem partir, mas não teve coragem de abrir os olhos. Saiu do elevador quase a correr e entrou no seu Toyota celica. Saiu da garagem, e acelerou. Não havia nenhuma igreja próxima dali. Começou a pensar em todos os erros que cometeu, em tudo o que fez e sacrificou para nada. Então viu a sombra de olhos vermelhos a “sorrir-lhe” num carro que vinha na direcção oposta. “tem calma” pensou enquanto olhou distraidamente para o lado direito. Saltou de susto quando o fez, viu uma criança totalmente carbonizada, viu aquela criança do seu sonho novamente. Olhou repentinamente para o outro lado, aquilo não era real, mas quando viu o seu reflexo viu o olhar do amigo que morrera no carro. Nesse momento embateu estupidamente nos rails de protecção e capotou espalhafatosamente dando várias piruetas no ar. Bateu com a cabeça várias vezes no volante e no vidro da janela e desmaiou.
Acordou no carro virado ao contrário, estranhamente o carro estava intacto, apenas ele estava bastante magoado. Abriu a porta do carro, tirou o cinto e caiu para fora do carro. A rua estava deserta e tudo parecia a preto e branco. A única cor que via era o vermelho do seu sangue. Tinha de continuar até à igreja e tentar salvar a sua alma e começou a correr. Repentinamente surgiu uma corrente no ar com um gancho que se espetou na sua mão direita e o puxou para trás fazendo-o cair ao chão. Levantou-se de um salto mas a corrente começou a arrastá-lo com força. Uma outra corrente surgiu do nada do outro lado e espetou-se na outra mão. Cada uma das correntes puxava para o lado oposto da outra enquanto ele se debatia para se libertar. Olhou para o chão enquanto se esforçava por puxar aquelas correntes que se lhe prendiam à carne e viu que este estava coberto de vidros e que ele próprio se encontrava descalço e começava a lavar os seus pés em sangue. Duas mais correntes surgiram, desta vez do chão, espetando-se nos seus dois tendões de Aquiles fixando-o. O chão começou a aquecer enquanto que o céu gelou. Uma chuva gélida começou a cair sobre ele enquanto que o chão lhe queimava os pés. O tecido da sua roupa começou a desvanecer-se aos poucos, assim como a sua esperança e força de viver. Tentou gritar mas nenhum som saiu da sua boca. Um longo trovão suou e nesse instante a chuva parou, o chão deixou de queimar e as correntes rasgaram-lhe a carne libertando-o. Caiu ao chão, para cima dos milhares de vidros ali espalhados que se acabaram por espetar na sua carne. Aquelas feridas eram bastante dolorosas, aquilo quase parecia o inferno, aliás, o inferno não poderia ser assim tão mau. Mas não podia desistir, tinha que se por de pé e continuar, e foi exactamente o que fez. Levantou-se e caminhou por cima dos vidros que não sabia sequer de onde vinham, cada passo que dava era tão doloroso que quase desejava morrer apenas para poder parar. Esforçava-se por manter os olhos abertos e não desmaiar, mas era difícil com tantas lágrimas e sangue a brotarem dos mesmos. Mais alguns passos e deixaria de caminhar por cima daqueles vidros. Todo o seu corpo doía, já tinha dores pelo acidente mas todos aqueles vidros minúsculos a espetarem-se no seu corpo sem roupas era realmente doloroso. Apenas mais um passo o separava de um chão de areia fina, mas então uma sombra surgiu e embateu nele jogando-o para o chão de costas, mas esse chão já não existia, havia dado lugar a uma piscina com álcool. Tentou gritar mas quando abriu a boca nada saiu, apenas entrou álcool que o queimava por fora e agora também por dentro. O álcool daquela piscina rapidamente ganhou uma tonalidade avermelhada pelo excesso de sangue que provinha do seu corpo. Esforçou-se por vir à superfície, mas uma corrente trespassara-o a meio dos rins e prendera-o ao fundo. Abriu os olhos por um segundo, mas estes queimavam com o álcool. Mas um segundo foi suficiente para discernir dois vultos à superfície da piscina, uma sombra negra com uns olhos vermelhos e uma silhueta de mulher. Sentiu o álcool aquecer a sua volta, à medida que este aquecia parecia queimar ainda mais. Então ouviu uma voz bastante familiar dizer.
-Não, ainda não.
Repentinamente a corrente que o prendia soltou-se e ele saiu daquela piscina. Mal chegou a superfície saltou logo de lá de dentro ficando debruçado a vomitar álcool e sangue. Abriu os olhos, mas mal conseguia ver. Estes começaram a chorar sangue em vez de lágrimas. Todo o seu corpo gritava de dor. Deixou-se cair no chão, não aguentava mais. Começou a sentir cócegas, mas não eram nada agradáveis, dois segundos depois essas cócegas deram lugar a umas dores insuportáveis para juntar às que já tinha. Levantou-se de um salto e tentou sacudir-se, mas de nada lhe adiantou. Olhou para algumas das suas feridas e viu bichos enormes a entrarem-lhe pela carne. Gritou, gritou tão alto quanto conseguia, ate cuspir sangue e quase rasgar as cordas vocais, logo se apercebeu que fora um erro gritar daquela forma pois enquanto gritava vários insectos e talvez ate um ou outro réptil entraram pela sua boca começando a come-lo pelo estômago. Uma luz acendeu perto dele e chamou-o à atenção. Olhou e viu Grinmord com uma chama na palma da sua mão.
-Espera só mais um bocadinho. – Disse uma mulher que se encontrava ao seu lado.
A mulher aproximou-se dele e espetou-lhe dois estalos que lhe arrancaram parte da cara.
-Eu estava grávida! – Gritou por entre lágrimas. – Agora arde! Arde no inferno!
A sua mulher pegou numa chama que tinha sido atirada por Grinmord e atirou-lha para os pés, ao mesmo tempo que um corvo lhe arrancava os olhos com o seu bico afiado. Num segundo todo o seu corpo se encontrava em chamas, queimando também o corvo que ainda se encontrava próximo da sua cabeça. Caiu ao chão em agonia, mas estava ensopado de álcool, por fora e por dentro e as chamas não abrandaram nem por um segundo.
Abriu os olhos dentro do carro. Tinha sido apenas um pesadelo, muito real por sinal, ainda tinha todas as dores. Saiu do carro que estava ao contrário, e caminhou na direcção da igreja. Já estava perto, já a conseguia ver ao longe. O trânsito havia parado por causa do seu carro virado ao contrário e muitas pessoas lhe perguntavam se estava bem mas ele não ouvia o que diziam, apenas tinha de chegar à igreja, tinha de acabar com aquilo. So tinha de atravessar a estrada, então viu-a novamente, a sua mulher. Deu um passo em frente mas logo deu outro atrás e em menos de um segundo um grande camião passou. Quando este saiu da sua frente a sua mulher já lá não se encontrava. Atravessou a estrada e chegou à entrada da igreja. Entrou, a igreja estava cheia. Estavam a rezar uma missa pelas almas condenadas. Dirigiu-se ao altar, onde estava uma pia com água benta. Toda a gente se calou com a sua presença no meio da igreja, nem o padre se atreveu a dizer nada. Quando se aproximou do altar o suficiente, tirou a adaga manchada com sangue de uma criança inocente e lavou-a na pia.
-Perdoe-me padre que eu pequei.
Foram as únicas palavras que proferiu dentro da igreja e antes de erguer a adaga e a espetar no seu peito em frente a todas aquelas pessoas. Vários gritos foram ouvidos pelos espectadores que também gritavam, várias sombras voavam dentro da igreja em volta do corpo ensanguentado. As sombras começaram a entrar no corpo, enquanto que algumas pessoas se benziam, e outras fugiam. Do nada apareceu uma sombra mais opaca que todas as outras, uma sombra com os olhos vermelhos.
-Hum… nah, não me parece bem, essa alma é minha!
Subitamente as sombras pararam de entrar no corpo sem vida daquele condenado, e o corpo ergueu-se no ar brilhando com tons laranja como o fogo. Os seus olhos pareciam ter desaparecido dando lugar a duas bolas de fogo. Então saiu algo prateado do corpo, mantendo sempre uma pequena ligação com este. Nesse momento as sombras voltaram a entrar no corpo e a luz que o preenchia começou a ficar mais forte e viva, ficando num tom de vermelho cor de sangue. A alma ficou parada entre Grinmord e o novo espectro ainda tendo uma ligação com este último.
-Nos somos Frearlord. Por me terem despertado irei-vos conceder os vossos desejos. Mas aviso que sairão bastante caros.
-Podias por começar por me devolver esta alma que me pertence. – Ordenou simpaticamente Grinmord apontando para a alma entre eles.
-Pois... quanto a isso nada poderei fazer, foi o dono desta alma que me trouxe, apenas desejando não ser teu, e sacrificou-se, por isso, a sua alma é mais que minha.
A alma voltou para o seu corpo de origem dando um último toque energético ao espectro.
-Dá-me essa alma!
-Não me parece…
A maioria das pessoas já havia saído da igreja mas algumas ainda não, como o padre e alguns idosos. A igreja fechou todas as portas e entrou em chamas. Os dois espectros atiraram-se um ao outro tentando por tudo destruir-se. As pessoas que se encontravam na igreja começaram a correr de um lado para o outro em chamas, tirando um idoso que morreu automaticamente e outro que apenas rebolou no chão antes de perecer. Assim que as pessoas morreram as suas almas foram direccionadas a Frearlord que as usou para ficar mais poderoso. Ambos os espectros se afastaram, Grinmord lançou uma bola de fogo à cara de Frearlord para o ofuscar e prendeu-o com uma corrente em chamas que desfez o seu corpo e o fez desaparecer dali. Frearlord apareceu atrás de si, pegou na sua cabeça e carbonizou todas as almas do seu corpo. Então um espírito surgiu e espetou a adaga de prata lavada em agua benta nas costas de Frearlord.
-Posso não te matar, mas todas as almas do teu ser irão sofrer para toda a eternidade! – Disse a mulher que fora condenada pelo marido antes de desaparecer em chamas.
O espectro cuspiu algo que para ele seria equivalente a sangue. Mas logo ficou bem.
-As minhas almas podem estar a ser torturadas, mas isso de nada me afecta. – Sussurrou. – todas elas estão condenadas a um inferno muito pior que o dito normal, mas isso só irá acontecer com o meu desaparecimento…

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

sexta-feira 26


Quando tudo parece mau, o que poderia acontecer? Ficar ainda pior! Dias de merda estes, vida de merda esta. Tudo parece estar contra mim. Já não luto o suficiente contra tudo isto ainda aparecem mais obstáculos, mais problemas! Não poderia estar mais chateado (ia dizer que a bocado estava mais, mas os meus pais acabaram de conseguir fazer com que isso fosse mentira!). Mas por mais chateado que esteja e que possa ficar amar-te-ei sempre, hás-de ser sempre a minha vida amor.

(PS isto já passa (em principio))
(PS2 o titulo é só para mostrar que não é preciso ser sexta-feira 13 para ter azar)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Saw VII


Bem, é o último filme da saga (infelizmente ultimo). Ver no cinema em 3D, é mesmo muito fixe, simplesmente brutal! Foi um dos filmes da saga que mais gostei até agora. Penso que este foi o filme em que morreu mais pessoas, e bem, explicaram algumas coisas que já me tinham deixado algumas duvidas, por exemplo, o que tinha acontecido a uma certa personagem. Podem pensar que eu sou parvo, mas fartei-me de rir com o filme, achei realmente muita piada, e ser em 3D ajudou a esse facto pois era muito giro ver bocados de carne voarem na nossa direcção. Aconselho este filme a quem gosta de género terror e thriller (já sei que há duas pessoas vão ver, espero que gostem (ps não contei nada do filme por vossa causa xp)).

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Pesadelos - VIII

Abriu a caixa. A primeira coisa que lhe saltou à vista foi um recorte de jornal de há muito tempo. O titulo era “três crianças morreram e uma desapareceu perto do cemitério”. Aquele jornal datava de há nove anos antes, isso queria dizer que mesmo aquelas crianças que haviam fugido acabaram por morrer. Continuou a examinar o interior daquela misteriosa caixa. Encontrou a sua antiga adaga, ainda manchada de sangue, um livro preto apenas com um pentagrama na capa e o cálice largo usado no ritual. A resposta tinha de estar no livro. Abriu e começou a ver, mas não conseguia ler o que quer que fosse, estava tudo em latim e não tinha tempo para andar à procura de uma tradução. Folheou o livro inteiro e no final encontrou algo escrito por Nelson.
“Último recurso:
Lavar a adaga com água benta, limpando o sangue, e espetá-la no peito em forma de sacrifício e forma de redenção perante o espectro criado”
Esta não podia ser a solução. Aquilo acabava por resultar no mesmo, estava condenado a uma morte certa de qualquer das formas. Voltou a folhear o livro, tinha de encontrar mais alguma coisa. Folheou até à última pagina, nada mais havia escrito naquele maldito livro. Olhou novamente para o que estava escrito e pareceu-lhe ver algumas letras no final. Esfregou a página como que a limpar alguma sujidade que tapasse o que quer que estivesse escrito. Finalmente pode ler, mas ficou na mesma situação pois não percebia o que lá se encontrava na letra de Nelson.
“Onrefni on redra e amla a redrep euq adiv a redrep elav siam”
Sentou-se na cama desesperado. As lágrimas misturaram-se com o sangue do seu nariz. Estava realmente condenado. Ia morrer e não havia nada que pudesse fazer… resolveu escrever aquelas estranhas palavras numa folha de papel, também não tinha nada a perder. As suas dores de cabeça aumentavam, e o sangue percorria o seu queixo e pescoço. Foi até à casa de banho, ainda com o papel meio amarrotado na mão. Pousou-o junto ao lavatório e lavou a cara. Teoricamente ajudaria a parar o sangue. Olhou para o seu reflexo durante um momento, então fixou-se no espelho. Dizem que o espelho é o espelho da alma, e era isso que estava a tentar ver. Então finalmente percebeu o que tinha de fazer.

Pesadelos - VII

Saiu do carro e dirigiu-se à porta da antiga casa do amigo. Bateu e aguardou um pouco até que a mãe do amigo lhe abriu a porta. Era uma senhora baixa e com um pouco de peso a mais, era morena e tinha os olhos castanhos.
-Boa tarde meu jovem, que deseja.
-Boa tarde… ah… eu sou amigo do seu filho Nelson… gostaria de saber…
Repentinamente a mulher desatou a chorar cortando-lhe a palavra. Voltou-se para trás deixando a porta aberta atrás de si. Passado menos de um minuto um homem de bigode, já com alguns fios grisalhos. O homem não era muito alto mas algo nele era tenebroso dando-lhe um ar um pouco ameaçador.
-A sua mulher começou a chorar… eu não sei o que se passou, não fiz nada, acho…
-Que queres daqui rapaz?
-Bem, eu sou amigo do seu filho Nelson e…
-Já percebi porque é que ela começou a chorar. Não sei se soubeste mas… mas o meu filho… bem, ele… ele morreu há já três anos…
Viu a sua última esperança desaparecer. Aquela era a única forma que tinha de se livrar de tudo aquilo. Só havia uma coisa a fazer, desistir. Ou talvez não, talvez ainda houvesse algo…
-Mas… mas como é isso possível, como é que ele morreu?
-Acidente. Morreu naquele maldito Ferrari! O carro não ficou com um único risco, mas o meu filho… os médicos dizem que não tinha um osso inteiro ou um órgão que não estivesse deformado.
-Posso ver o quarto dele?...
-Que queres de lá?
-Ah… despedir-me…
Após alguns momentos de silencio o homem indicou que o seguisse. Quando entrou para o corredor da casa pode ver ao que a mãe do amigo se encontrava numa das divisões à direita, que deveria ser a cozinha, a chorar. Seguiram sempre em frente pelo corredor até que chegaram a umas escadas que subiram e entraram na primeira porta à direita. O quarto parecia estar como Nelson o havia deixado, não estando totalmente arrumado mas bastante limpo. Estiveram alguns minutos no quarto sem proferir uma palavra.
-Já te despediste?
-Ah… não me poderia deixar um pouco sozinho?
O homem ficou a olhar para ele como se o estivesse a examinar por dentro para decidir se o deixaria ou não ficar no quarto do falecido filho sozinho. Acabou por decidir e sem mais nada dizer saiu do quarto fechando a porta atrás de si. estava na altura de procurar. Olhou para a grande estante repleta de livros, não pareciam nada de Nelson, pelo menos duvidava que ele algum dia os tivesse lido. Por outro lado, havia muitas coisas no amigo que parecia desconhecer por isso era bem provável que fosse natural ele ter tantos livros. Nenhum dos títulos o chamou a atenção e continuou a procurar. Nada encontrou. Procurou por todo o lado mas não encontrou nada de útil. Tinha que lhe estar a falhar alguma coisa. Debaixo da cama, como é que se poderia esquecer de procurar aí? Logo encontrou uma grande caixa preta. Estava fechada com um cadeado e tinha um pentagrama desenhado na tampa. Tinha de ser aquilo, mas como ia levar aquela grande caixa sem que os pais do amigo dessem conta? Olhou à sua volta. A única opção era atira-la pela janela e esperar que nada no seu interior se quebrasse. Não pensou duas vezes antes de atirar a grande caixa pela janela, e mesmo a tempo pois no segundo seguinte o pai do seu amigo entrou pela porta dentro.
-Acho que já chega de despedidas não concordas?
-sim.
Assim que começou a descer as escadas que davam para o corredor começou a sangrar novamente pelo nariz. Desta vez não sangrava tanto como da primeira e o pai de Nelson só se apercebera quando já se encontravam à porta.
-Estás bem rapaz?
-Isto já passa, não se preocupa. – Disse virando costas para rodear a casa e ir apanhar a caixa que minutos antes tinha atirado pela janela.
Não demorou a encontrar a caixa, assim que se debruçou para a apanhar o caudal de sangue do seu nariz aumentou, tal como as dores de cabeça. Quando levantou a cabeça ao longe viu novamente a sombra de olhos vermelhos, parecia saber o que detinha naquele momento nas mãos. Caminhou até ao carro com a caixa nas mãos à frente do seu peito. Em alguns segundos também a caixa ficou com manchas vermelhas do seu sangue. Não podia ligar àquilo nem às suas dores de cabeça, por mais agoniantes que fossem. Abriu a porta do pendura e colocou a caixa presa com o cinto de segurança, em seguida entrou também ele no carro. Conduziu até casa com esforço, quase já sem ver o caminho por causa das dores de cabeça. Apenas parou o carro na garagem, passando por semáforos vermelhos e STOPs sem sequer abrandar. Soltou a caixa do cinto e levou-a consigo para o elevador. Carregou no quatro e aguardou que o elevador subisse. Pouco depois de passar pelo terceiro andar olhou para o reflexo das portas de metal e viu-se com lágrimas de sangue, mas já nem ligou. Saiu do elevador e entrou no seu apartamento, abrindo a porta um pouco a custo. Colocou a caixa negra por cima da mesinha de centro que se encontrava no meio dos sofás na sala. Foi até à pequena arrecadação e trouxe uma caixa de ferramentas. Pegou numa chave de fendas, preparando-se para forçar o fraco cadeado. Não devia ser difícil. Colocou a chave entre o cadeado e a caixa negra utilizando-a como alavanca. Fez força, bastante força e finalmente rebentou o cadeado, quase caindo. Agora ia ver o que continha aquela estranha caixa, ia ver a sua salvação.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Pesadelos - VI

Continuou a correr. Não podia ser descoberto. Não o podiam apanhar. Mas de quem estava a fugir? Bem, tinha apenas de sair dali, tinha que procurar ajuda. Quem o havia posto naquela situação certamente também haveria de saber tirar. Mas há anos que não falava com ele, não sabia qual seria a sua reacção, mas tinha de ser, não tinha outra escolha. Seguiu a pé até à rua do seu prédio, que demorou um pouco pois era longe. Procurou nos bolsos das calças as chaves. Encontrou-as e subiu ao seu apartamento, tinha de procurar em papéis antigos a morada do amigo. A procura demorou um pouco, a dor de cabeça não ajudava, mas por fim encontrou o que procurava, uma lista que havia feito há vários anos com os nomes e as moradas dos seus melhores amigos. Reatava saber se ele ainda morava no mesmo sitio, certamente que não mas os seus pais ainda lá deveriam morar e ir-lhes-ia pedir a morada do filho. Foi até à cozinha, não comia nada há demasiado tempo e o seu estômago queixava-se com demasiada intensidade. Bebeu apenas um copo de leite, mais que isso o seu estômago não iria aceitar por muito tempo. Saiu do apartamento e carregou no botão do elevador. Demorou um pouco a chegar mas tinha de esperar, não existiam escadas para a garagem. Entrou no elevador e carregou no menos um. No terceiro andar entrou mais uma senhora que seguiu até ao primeiro e saiu não dizendo nem uma palavra. Estava já perto do seu destino quando o elevador parou. Carregou intensivamente no botão do menos um mas o elevador não queria mexer. Uma luz de presença era toda a luz ali. Olhou para uma das paredes de metal e saltou quando viu uma sombra de olhos vermelhos em vez do seu reflexo. Voltou a olhar e era apenas o seu reflexo e o elevador voltou a funcionar levando-o até à garagem. Assim que saiu do elevador lembrou-se que o carro não se encontrava ali e seria uma grande sorte se não tivesse sido rebocado da frente da pastelaria. Voltou a entrar no elevador, esperando que este não voltasse a parar. Subiu até ao rés-do-chão e saiu. Teria que andar até à pastelaria, mas não era muito longe. Chegou lá em alguns minutos. Miraculosamente o seu Toyota célica ainda se encontrava no mesmo local que o tinha deixado antes de ser levado para o hospital. Dois polícias encontravam-se na rua a discutir e ficaram espantados quando entrou no carro, o ligou e arrancou nele a toda a velocidade.
-Como é que o reboque não arrancou o carro do sitio e ele agora andou?...
Acelerou, tinha que despachar a chegar antes que um desastre acontecesse. Não ia demorar a chegar ao destino, não era muito distante, mas quanto antes resolvesse aquilo melhor. Chegou em alguns minutos, era agora, ia resolver todos aqueles tormentos. Quem lhe dera ter acordado para aquele problema antes, antes de ter perdido o mais importante que poderia ter perdido.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pesadelos - V

Nove anos antes…
Num cemitério, já não muito utilizado, numa sexta-feira treze de lua cheia, quase à meia-noite, encontravam-se seis rapazes com idades entre os onze e os quinze anos.
-Qual é mesmo a razão de estarmos aqui? – Perguntou um dos rapazes mais velhos.
-O simples facto de provavelmente não termos mais nenhuma oportunidade como esta na vida! – Respondeu outro dos mais velhos.
-Hum… e esta oportunidade, como dizes, é a oportunidade de?...
-A oportunidade de ter alguma coisa na vida! Anda faz isso e pára de fazer perguntas! – Disse apontado para o chão.
-Tá bem, tá bem…
Este último rapaz acabou de desenhar um grande pentagrama no chão e colocou uma vela em cada uma das cinco extremidades.
-O resto é contigo…
-Sim, eu sei.
Colocou um cálice largo de prata com um pó amarelado no seu interior no centro do pentagrama e rodeou-o com mais cinco velas, em seguida acendeu as velas que acabara de colocar e as outras que o amigo colocara antes.
-Trouxeste o que te pedi? – Perguntou afastando-o dos outros para que mais ninguém ouvisse a conversa.
-Sim, mas para que a queres?...
-Bem, para completar o ritual temos de fazer um sacrifício humano. Espero que estejas à altura da tarefa.
-Ah sim… Pera, O QUÊ?!
Virou costas deixando o amigo incrédulo e sem resposta. Este não acreditava no que se estava a meter. Nunca devia ter aceitado ir ali com aquele fanático, e acima de tudo, não devia ter trazido ninguém consigo. Estavam todos à sua espera no pentagrama para começarem o ritual. Agora já era tarde para voltar atrás, de qualquer das formas não acreditava naquilo. Dirigiu-se também para o pentagrama, já não havia volta a dar, não iria passar por cobarde. Quando lá chegou três dos rapazes estavam posicionados em três das extremidades do pentagrama e dois encontravam-se no centro junto ao cálice.
-Vem cá! – Ordenou o rapaz com quem acabara de falar.
Caminhou até ao centro onde estavam os outros dois. Para além do rapaz com quem estivera a falar e que o chamara estava o membro mais novo do grupo que apenas tinha onze anos de idade.
-Agora faz o que te disse. Rápido!
Não era capaz, não podia. Era apenas uma criança…
-Então? Faz isso depressa!
Tirou a adaga de prata do bolso do casaco, disposto a tentar completar a sua tarefa e a mostrar a sua força e coragem, mas não era capaz.
-Oh dá cá isso. – Disse tirando-lhe a adaga da mão e espetando-a no peito da criança de apenas onze anos.
Os seus olhos apagaram-se no segundo em que a adaga de prata ornamentada lhe trespassou o coração. O assassino arrancou-lhe a adaga do peito, colocou-a dentro do cálice e acendeu o pó amarelado que este continha.
-Invoco todos os espíritos negros para concederem os nossos desejos! Aceitem o nosso sacrifício, uma criança inocente pela vossa presença!
Os três rapazes que se encontravam em três das extremidades do pentagrama fugiram aterrorizados com o que presenciaram. Repentinamente um vento frio soprou e sombras surgiram de toda a parte, parecendo provir todas do chão daquele cemitério amaldiçoado e todas elas se dirigiam para eles.
-Não gosto nada disto…
-Não te preocupes, fui eu que as chamei, não nos irão fazer mal… acho…
As sombras disformes aproximavam-se cada vez mais e cada vez mais depressa. Não faziam ideia do que iria suceder, se iriam ficar bem ou mal. Mas então todas as sombras entraram no corpo sem vida da criança e por um segundo parecia que tinham desaparecido. Mas isso seria demasiado bom, então, o corpo da criança levantou-se e ficou com os olhos totalmente vermelhos.
-Nós somos grinmord. Por nos teres despertado iremos conceder-vos um desejo mas irá sair caro. – Disse uma voz grossa e tenebrosa a partir do corpo da criança.
-Eu, eu… quero um Ferreri!
-Hum… um carro… sim. Isso só custará a tua alma! Muahahahah….
-De acordo, mas não me faças mal…-disse molhando as calças.
-Um dia, quando eu quiser, virei para te buscar! E tu que queres?! – Disse apontado para o outro rapaz que ainda ali se encontrava.
-Eu… ofereço a alma da minha mulher, quando tiver uma. E quero… um bom carro e um bom emprego, bem, estar bem de vida…
-Hum… isso ir-te-á custar mais que a alma de alguém que não conheces! Suponho que a tua alma também faça parte do pacote. – Disse, libertando o corpo.
Todas as sombras deixaram o corpo numa só, que apresentava uma forma humanóide e uns olhos vermelhos. O corpo deixado no chão sem vida encontrava-se com a pele enegrecida e com os globos oculares vazios. Ambos tiveram que se esforçar por conter o vómito quando a seguir tiveram de cavar uma cova e pegar e enterrar aquele pequeno corpo que quase se desfazia nas suas mãos.
Nos dias seguintes pensou que estivesse a alucinar e com o tempo acabou por pensar que tudo aquilo não passara de uma partida que a sua mente lhe pregara, acabando quase por esquecer aquele assunto, até agora pelo menos.